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| Announcement: Entrevista de Mourinho - O JOGO |
| Posted: Pedro Cruz @ Sun Nov 22, 2009 3:28 am |
"Nada me motiva em Portugal"
Só daqui a vinte anos José Mourinho volta a trabalhar em Portugal... e se a FPF estiver interessada nele para seleccionador nacional. Até lá, o cantinho à beira-mar plantado serve apenas para passar férias, tratar de negócios, rever amigos e familiares. Porque se recusa a voltar a um paÃs que lhe deixou (e continua a deixar) algumas mágoas e que, acima de tudo, não o motiva, nem profissional, nem pessoalmente. "Não me motiva voltar a trabalhar no futebol português", respondeu o treinador, questionado sobre a possibilidade de um dia voltar a orientar um dos grandes do campeonato luso. "Nada me motiva em Portugal. É o meu paÃs, a minha paixão, mas não faz parte dos meus horizontes, nem da minha famÃlia, voltar a viver em Portugal ou trabalhar no futebol português", prossegue, em conversa mantida num dos confortáveis cantinhos do centro de estágios do Inter de Milão, o Appiano Gentile.
Minutos antes acrescentara um prémio à (vasta) colecção pessoal. A distinção foi atribuÃda pelos jornalistas portugueses (ver peça à parte), e Mourinho retribuiu, convidando os três profissionais lusos presentes para esta conversa Ãntima, em que expôs sem inibições as suas ideias. O treinador voltou a falar de mágoas antigas, relembrando aqueles que lhe "quiseram acabar com a carreira ainda antes de ela ter começado", mas também recentes. "Os meus amigos dizem que até têm de desligar o som da televisão quando vêem os jogos do Inter", diz, aludindo a comentários crÃticos que por vezes lhe são feitos. Até porque em Itália é diferente. "Capello, Trapattoni ou Ancelotti são tratados de outra forma aqui em Itália." Melhor, claro...
"Estou grato ao futebol português, mas também lhe dei muito"
Agora, Mourinho está longe, mesmo muito longe, do que se passa em Portugal. "Acompanho muito pouco o futebol português. Se esta época tiver visto seis jogos se calhar é muito", conta, explicando que prefere campeonatos como o espanhol, o inglês, o italiano ou até o russo. "De Portugal, só leio os resultados, para saber o amigo que ganhou ou empatou e para saber se o Setúbal ganhou ou não."
Não se veja nesta expressão de sentimentos algum tipo de ingratidão. O treinador está bem agradecido à importância que o paÃs onde nasceu e cresceu teve na sua formação. "Foi uma etapa da minha carreira, que ganhei e que me permitiu sair com um determinado estatuto num mercado muito mais difÃcil e exigente. Estou muito grato ao futebol português, embora também reconheça que dei e continuo a dar qualquer coisa em troca", frisa, apontando o prestÃgio em todo o mundo que, por sua via, é indirectamente outorgado a toda uma nação: "Porque toda a gente sabe que sou o José Mourinho... de Portugal."
Mas está longe o dia de receber dividendos. "Só na velhice, para seleccionador, se me quiserem. Porque quero gozar a minha profissão e as potencialidades que Deus me deu. E a saúde que me tem dado, para viver até aos limites esta paixão." Que paixão? "O futebol de alto nÃvel, as exigências de alto nÃvel, tudo isto que tive em Inglaterra, que tenho agora em Itália, que terei de novo um dia no futebol inglês, ou, quem sabe, no espanhol. É à volta disto que eu quero andar..."
"Carvalhal vai fazer bem no Sporting"
Mourinho analisa o novo treinador do Sporting com o mesmo grau de tolerância com que avalia as potencialidades de Portugal no próximo Mundial. Ou seja, não lhe peçam demasiado. "Acho que vai fazer bem o seu trabalho", comenta o técnico do Inter, explicando melhor a ideia logo de seguida: "Mas o que é fazer bem no Sporting? É agora, com 20 pontos de atraso, ganhar o campeonato? Isso não é fazer bem, isso é um milagre! Fazer bem é acabar no terceiro lugar, é aproximar a equipa, é melhorar o nivel de qualidade da equipa. Ganhar uma de duas taças, avançar mais um pouco na Liga Europa e, neste contexto, sem querer ser defensor de ninguém, penso que Carlos Carvalhal irá fazer bem."
Para já, o leão merece o benefÃcio da dúvida, até porque já deu provas de que tem valor. "Um treinador com dez ou com quinze anos de carreira tem sempre momentos altos e momentos baixos", começa por explicar Mourinho. "Baixos todos têm, mas altos não, e ele já teve momentos que nos contextos em que estava inserido são momentos altos." Para quem já se tenha esquecido, Mourinho relembra esses momentos. "Já subiu de divisão e isso é um momento alto, esteve numa final de Taça com uma equipa pequena, ganhou uma Taça da Liga com uma equipa sem grande potencial... Portanto, ele já teve momentos altos e isso significa que tem capacidade. Penso que vai estar bem no Sporting."
"Não somos candidatos a conquistar o Mundial"
A vitória na Bósnia, e consequente apuramento de Portugal para o Mundial, não encandeou Mourinho. O feito foi meritório... mas daà a pensar-se que os lusitanos são favoritos à conquista do Campeonato do Mundo vai uma grande distância. Para o treinador português, passar a primeira fase é o desÃgnio luso. "Na minha opinião, Portugal não é candidato. Há selecções melhores, selecções com mais potencial e, tendo-o, têm mais possibilidades de ganhar a competição. Mas, na linha do que tem feito nas últimas vezes, parece-me que é equipa para fazer bem, e com isso quero dizer que é equipa para chegar a fases adiantadas da prova", perspectiva.
Mas será que, com Mourinho ao leme, Portugal teria mais hipóteses? Nem vale a pena colocar o cenário. Mais uma vez, reafirma, Selecção só na velhice. Aos 50 anos? Não! 60 anos? Não! Só mesmo aos 70, assim ao jeito de Trapattoni. "Não tendo sido um jogador de primeiro nÃvel, nunca tendo representado o meu paÃs como jogador de alto nÃvel, que não fui, e sendo treinador de primeira linha, quero um dia fazê-lo. Mas repito, gosto do que faço a nÃvel de clubes, e só me vejo assim como o Trapattoni lá para os 70. Não me vejo aos 50 e se calhar nem aos 60", comenta.
Quanto ao apuramento, não deixa de endereçar os "parabéns a todos os que participaram nesta fase de qualificação, desde a estrutura directiva aos treinadores e aos jogadores". Explica ainda ter "ficado contente, como qualquer português". Não com um "sentimento especial" ou um secreto desejo de agarrar nesta equipa de que também é adepto, mas friamente como em tudo na vida: "Fiquei contente, como você também ficou."
Di MarÃa fora das contas
Di MarÃa já foi dado como potencial contratação do Inter de Milão, mas, segundo Mourinho, não faz parte dos planos. A pergunta foi sub-reptÃcia, já após a entrevista, mas a resposta foi expressiva. Lo Speciale abanou a cabeça em sinal negativo e a fazer que não com os dedos, deixando entender que a contratação não será efectuada.
Telefonema a Trapattoni
O França-Irlanda tem gerado indignação. O golo ajudado a fabricar pela mão esquerda de Henry, apurando os gauleses para o Mundial, também incomodou Mourinho. "Não vou comentar, isso fica só para mim. Mas a seguir ao jogo telefonei ao Trapattoni [seleccionador da Irlanda] para falar sobre o assunto", solta num tom cáustico.
Só Zenga vai votar nele
Dentro de pouco tempo será atribuÃdo em Itália o prémio de treinador do ano. Mourinho acha que vai ter poucos votos. "Sou o único treinador estrangeiro na liga italiana e, sendo os treinadores a votar, não me parece que vá ganhar. Se calhar até só tenho dois votos, o meu e o do Zenga, que é interista e é meu amigo", disse, irónico.
Esqueça os estudos, profe Jesus...
Bem recentemente, o professor Manuel Sérgio, um dos mestres de José Mourinho, disse que a Jorge Jesus só "falta cultura para estar em pé de igualdade" com Lo Speciale. Ora, para o próprio Mourinho em pessoa, a formação académica nem sequer é um handicap que mereça ser sobredimensionado. "Jesus já é treinador de um grande clube mundial. É treinador de um clube com grandes exigências e de grande projecção mundial", começa por explanar o treinador do Inter. Mas... estudos, não lhe faltam estudos? "O que conta são os resultados e não a formação académica que se tem. A formação académica por si só não prepara ninguém para ser um grande treinador de futebol. Se pode fazer a diferença, se pode ajudar a projectar um treinador para um nÃvel de conhecimento diverso, obviamente que sim. Mas por si só não faz um grande treinador."
Novo Mourinho é... o filho
Com indisfarçável emoção, o técnico revela que o filho já lhe segue as pisadas: assistiu ao recente Vaduz-Inter... no banco, junto com o pai. "Discutiu o jogo comigo no banco e esse dia foi muito, muito especial, porque foi seguramente o primeiro de muitos e foi um dia igual a tantos outros que eu tive com o meu pai", conta Mourinho.
O JOGO
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